Ser ou estar gordo (To be fat)

obeso

Muitos gordos falam: Eu não sou gordo; estou gordo. Se fosse em inglês, não faria muita diferença, já que I’m fat pode significar tanto ser quanto estar gordo. To be fat: ser/estar gordo. Pois então.

No meu caso, sempre fui gorda. Às vezes muito gorda (tipo atualmente), às vezes até próxima da faixa de peso normal. Mas sempre gorda. Efeito sanfona entre quase normal e muito gorda desde, sei lá, 10 anos de idade.

Me habituei às partes boas e ruins de ser gorda. Partes boas existem? Sim! Tenho peitão, coxão e bundão, e gosto disso. O problema é quando fica tudo tão ÃO que não cabe mais nas blusas e calças de outrora. Tipo atualmente. Nunca precisei ir em loja de roupa de gordo, mas não tô longe disso, não.

A parte ruim? Essa é fácil. É preconceito pra caralho. A pior coisa que já passei quanto a isso aconteceu ano passado, numa balada em Ilha Bela – litoral norte de São Paulo: um cara ficava toda hora me empurrando na pista de dança. Pensei que ou fosse débil mental ou queria me pegar. Mas encheu o saco: virei pra ele e falei numa boa: “Amigo, você pode ir um pouquinho mais pra trás? Você está toda hora relando em mim”. O cara respondeu: “a culpa não é minha se você é enorme de gorda e ocupa todo o espaço disponível”. Não pensei duas vezes: catei o copo de uísque cheio que ele  tinha na mão e taquei na cara/roupa dele. Olha, recomendo do fundo da alma essa experiência. É incrível. O cara ficou PUUUUUUUUUUUUUUTO. Bem próximo de me bater. Mas minhas amigas me tiraram de lá – a essa altura eu tava soluçando de chorar – e chamaram o segurança pra dar um jeito no cara.

Tenho facilidade para emagrecer: basta minha vida estar OK e alguma mínima motivação – alguma festança a vista, algum romancezinho, formatura, viagem… Se os dois pontos citados batem, consigo ter ânimo pra me matar de malhar, emagrecer quase 10 Kg em um mês e manter a dieta por mais 2, 3 meses. Mas se não tem o tal motivo… Bodeio de tudo e engordo tuuuudo de novo.

Porquê raios isso acontece eu não tenho a mais puta noção, e ainda nem discuti isso com a minha terapeuta. Mas como isso acontece eu sei: eu tenho um distúrbio alimentar fodido – uma compulsão alimentar grave. Nada de bulimia nem anorexia. O que eu faço basicamente é dosar períodos de severas dietas alimentares com outros de completa “orgia” alimentar (esse termo achei excelente!). Vivo em função da comida, planejando o que vou comer, quando e porquê, fazendo cálculos de calorias e, de repente, me deixo levar por uma tentação e a dieta vem a baixo. Aí penso: “perdido por um…” e como. Como, como, como… Eu resumo: “A compulsão alimentar ou episódios de comer compulsivo, por definição, consiste na ingestão de uma grande quantidade de comida em período curto de tempo. Essa quantidade é definida como definitivamente superior do que a maioria das pessoas conseguiria comer durante um período de tempo igual e sob circunstâncias similares.”

Me alimento sem sentir fome. Eu costumo dizer, por brincadeira, que não espero sentir fome para comer. Com medo da fome, me previno. Algo assim.

Esse é um problema que eu tenho desde os mais remotos tempos de infância. Os sites que andei lendo me chocaram. Se aplicam a mim como uma luva, sem tirar nem pôr. Minha auto-estima sempre foi nula (antigamente era pior, mas ainda sim me sinto deslocada do mundo “normal”.) Tenho certeza da minha falta atributos físicos – só físicos, pq intelectualmente eu me amo. E olha só essa frase: “A intensidade dos excessos é diretamente proporcional ao grau de comprometimento da auto-estima.”

Só que aí vem a pior parte, a que mais se encaixa comigo: “No ataque de comer a pessoa come muito mais depressa que o usual, praticamente sem mastigar ou mesmo sem fome. Come até estar desconfortavelmente empanturrada. Quem come compulsivamente sente-se constrangido com a quantidade de comida que ingere no ataque de comer. Muitas vezes come escondido ou da forma mais discreta possível. Em público mantém comportamento alimentar controlado, tendendo a ingerir produtos dietéticos. Reconhece os ataques de comer como anormais e depois deles sentem-se culpados, deprimidos, preocupados com as conseqüências em longo prazo, inclusive em seu peso e forma corporal. Sua dificuldade em controlar-se é vista como “falta de força de vontade” e é acompanhada de autodesvalorização e desamparo.”

Sou eu, sem tirar nem pôr. Agora eu entendo direito todas as minhas neuras com o meu corpo, os porquê de eu achar que sou sempre a mais gorda, feia, desajeitada e por aí vai, do recinto.

Quando descobri sobre isso, fui atrás de tratamento. Mas, surpresa: R$ 250 A SESSÃO. Ou seja: só rico tem direito a tratamento. Espero que a minha terapeuta, bem mais barata por sessão, consiga me ajudar nisso.

(Fonte: site http://www.tommaso.psc.br/html/alimentar/compulsao/comp10.htm)

Sim, sou toda problemática, eu sei e tento lidar com isso.

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14 comentários sobre “Ser ou estar gordo (To be fat)

  1. Vi sua foto e nao parece ser tao gorda assim como fala!
    Eu sempre fui magra, e agora que estou engordando,mas nada em excesso.
    Comer? Muuuuito legal!
    Tem coisa melhor?
    Acho que fazer sexo, mas muitas vezes prefiro um bom pedaço de pizza ou um Mcdonalds.
    Agora que esta fazendo terapia sua vida vai mudar, e sua alto estima tambem.

    bjk

  2. porra, porque comer é tão bom, hein? Puta que pariu.

    ó, eu sempre fui gordinha. Nada do tipo, “nossa, vc é goooorda”. Algo em torno de 5kg acima do peso ideal (apesar de já ter chegado a 10kg acima do peso ideal).

    Aprendi a viver bem com o fato de eu não ser uma pessoa magra, esquelética. É claro que eu tenho uma barriguinha, mas também tenho coxão e bundão. E, sinceramente, sou feliz do jeito que sou (embora queria perder uns 3kg).

    Cada um sabe de si. Eu sei que se eu não fizer atividade física, engordo mesmo. Isso porque eu não abro mão da cervejinha nem de algumas gostosuras no fim de semana. Então, pra não ter que deixar de comer/beber, prefiro correr.

    Já tive episódios de compulsão alimentar. Sei bem como é isso. E é mais normal do que as pessoas imaginam. E é fácil de controlar, mas tem que ter uma ajudinha – seja de um amigo, seja de um terapeuta.

    Enfim, que se fodam as pessoas que têm preconceito com os gordos. Aliás, que se fodam as pessoas que têm qq tipo de preconceito!

    E uma dica: procure valorizar aquilo que você tem de melhor. Ajuda pra dar um up na auto-estima! 🙂

    beijo!

  3. oi, marcella?

    é, quase achei que talvez fosse eu quem estava falando. então, todos esses seus sentimentos cabem no cós de qualquer calça minha (sim, é grande).

    deve ser muito crítico chegar num estágio onde comer é um exercício, né? como, sei lá, um evento social – entre outras coisas. e o pior é ver fotos de pouco tempo atrás e se sentir arrependida de, nessa época, ter se achado gorda. enfim, também preciso emagrecer porque no meu caso não é apenas um estado.

  4. Eu me vi nas suas palavras! De novo!!! Olha, eu nunca tinha sido gorda, mas nunca fui magra (a não ser com 15 anos, que comecei a ter anorexia – mas nada que minha família italiana não tenha resolvido, me entupindo de chocolate goela abaixo). O problema é que na minha família TODO MUNDO é gordo, quase… E eu me larguei na vida desde o início da faculdade. Morando sozinha, sem saber cozinhar… comecei a me embuchar. Hoje, estou com sobrepeso – bem de leve, mas tou. Só que, mesmo que não fosse considerado sobrepeso, eu iria me sentir mal, porque quero pesar 10 kg a menos!! Mas também tenho compulsão alimentar! E não quero te desmotivar, mas… são 5 anos que eu faço terapia, e POUCA COISA mudou. O psiquiatra me receitou até Topiramato (um antiepiléptico que tb age diminuindo compulsão alimentar), e adivinha se funcionou? NÃO!!

    ADORO dar pitaco, então lá vai o meu, sobre a tua, a minha, a NOSSA compulsão: não vai ter terapia que resolva, a não ser que A GENTE descubra como mudar isso. Porque, na real, quando a gente come compulsivamente, a gente tá tentando preencher um vazio MUITO grande dentro da gente – por isso, é tão difícil parar: se a gente pára, o vazio volta!! O primeiro passo é descobrir qual o vazio; o segundo passo, descobrir COMO lidar com esse vazio, e como deixar de sentir, sem precisar da comida. O problema é que eu sei o meu, mas não é SÓ um: são, pelo menos, uns 20 vazios! É um vazio de peso, daqueles que não somem do dia para a noite – vazio demais pra um ser humano só!

    Bom, falei demais!
    Bjs, boa semana (:

  5. De novo eu me vi no que você escreveeu ç.ç
    Isso de comer escondido, de ficar mal depois, de ficar pensando, programando o que vou comer! E a normalidade natural nos ambientes com o resto das pessoas tbm. Sempre oscilei entre esses estados e tbm tô num período mais gordo agora. Quando fico a fim de alguem perco peso logo, mas recupero num instante. E sempre fiquei tentanto encontrar razões pra isso, coisas do tipo: quando eu for morar só n vou ter nem essa suposta emoção de comer escondido e tal, então devo melhorar. E, assim, minha mãe tenta me controlar muito, sabe? Ela e mais um monte de gente pensa que é desleixo mesmo. Parece que isso me faz comer muito mais. Às vezes, fico supermal pensando no assunto e me sinto, como vc disse, a mais horrível no lugar.
    E deve ser bem isso que Bee falou. O pior é que eu, no fundo, sei qual é o maior desses meus vazios, mas devo tá longe de consertar essas coisas.
    Enquanto isso, venho me despedaçando em oscilações de humor e, proporcionalmente, de comida.
    E, sério, é mais que impressionante como eu me vejo nessas situações. O que, na verdade, não é bom, mas já que estamos assim, de algum jeito é bom saber que n se tá sozinho.

    Beijo.

  6. Meu problema sempre foi ser magra de mais.
    Agora até estou melhor,mas sempre tive vergonha das minhas perninhas finas.

    Olha,eu não sei como as pessoas podem ser tão cruéis,sério.Que absurdo o que o carinha te disse.Será que acham que as pessoas não têm sentimento :@.
    Mas,deixa eu dar os parabéns pelo copo de uísque na cara.
    Um dia ainda faço isso,com qualquer líquido que seja.

    É impressionante o quanto a nossa autoestima mexe com a gente,né?Fiz até um post,outro dia,sobre isso.É difícil mantê-la alta,ainda mais com gente sem noção por aí.

    E concordo com a menina de um comentário acima,vc não parece gorda,pela foto.

    beeijos ;**

  7. Ana [Ana e o maaaaaaaaaaaaaaaaar, mar e Aaaaanaaaaa…], no meio disso tudo, não sei que acontece, mas sua veia literária está afiadissima – tá escrevendo muitooooooo. Mas muito de mto bem, entende? 😉

    Enfim, peso pra mim nunca foi assunto, agora até é: eu sempre fui magrela. Magra não, magrela. Sempre tive peitão, mas o resto…daí de janeiro pra cá, engordei míseros 4kg. E loooogico, fez a maior diferença. E loooogico, povo adora dizer: ah vc engordou né?

    ¬¬

    Pra azar dessa galera, eu AMO o fato de ter engordado – agora eu tenho presença fisica, ahuahuhauha…me sinto dentro das roupas.
    Acho que o negócio da coisa toda é: se sentir bem. Se o ganha-perde-ganha-perde estiver te incomodando, e se isso tiver um fundo emocional, ou psicologico…espero que a terapia te ajude a encontrar o pq.

    😉

    ;*

  8. Olá, a maioria não acredita, mas os magrelos tb sofrem, eu sempre passei pelo contrário, era sempre a magrela nanica, se não comia “Vai ficar desnutirda, essa menina não come por isso tá essa secura!” Se come um pouco a mais “Tá querendo engordar bobagem…”

    rsrsrs

  9. Caio disse:

    Ah nem preciso comentar né? kkkkkk
    Tamo junto parceira. Terapia há mais de 10 anos, mas melhorei bastante..só que só de uns anos pra cá.
    O lance é, como disseram aí em cima, a gente encontrar o que nos faz mal…o que gera a compulsão. Eu encontrei e consigo lidar com a compulsão, mas não controlá-la. As vezes ela vem, numa terça feira a noite, quando vc menos espera.. mas a luta continua! Estou há 3 anos mantendo um bom peso comparado ao que eu tinha..quero perder mais…mas to conseguindo controlar. Tenho consciência que a luta é por toda a vida..se descuidar, descamba.
    Eu decidi assumir o compromisso de emagrecer pra preencher um dos vazios que eu sentia…e tem resolvido…um passo de cada vez..
    Muita força…

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