Meus dias de paz

Amanhã faz um mês que estou desempregada. E vou confessar que estou numa paz de espírito absoluta. Tô leve e feliz. Só me faz falta o salário, mas por enquanto a grana do fundo de garantia e do seguro-desemprego estão suprindo bem minhas poucas necessidades. Ser mão-de-vaca tem lá suas compensações!

Mas então. Por conta dos meus direitos trabalhistas, tenho batido ponto no centro. Fui 3 vezes no PoupaTempo Sé em menos de 24h. Fui na Paulista várias vezes, fui em várias agências da Caixa, fui na Polícia Federal buscar passaporte… E preciso confessar que ADORO passear de ônibus. Adoro observar as ruas, as pessoas nas ruas, os caminhos, as nuvens no céu. Sem pressa, sem compromissos.

Sei que ir/voltar do trabalho de busão na hora do rush NEM é legal. Mas andar de ônibus naqueles horários X em que o povo trabalha ou estuda, e o ônibus e as ruas tem bem menos gente que o normal… É tão bom! Naquelas tardes de outono maravilhosas, com um vento gelado e um céu de um azul eterno. Adoro o centro de São Paulo. Claro que o cheiro de xixi e os mendigos pedindo esmola não são coisas agradáveis, mas simplesmente pertencem àquilo. Em qualquer grande metrópole do mundo vai ter cheiro de xixi (mais ou menos) e mendigos (mais ou menos) no centro.  Políticas de assistência social pífias (principalmente em São Paulo) são responsáveis por isso, e são um problema crônico.

Mas o que me encanta são as construções clássicas. O prédio do Fórum da Justiça e a Catedral da Sé dourados, refletindo a luz do sol, constituem uma visão esplendorosa para quem tem olhos para enxergá-la. Alguém que não está estressado, com um mundo de problemas no trabalho, com prazos e chefes chatos. A vida chata de adulto que levamos nos impede de admirar a beleza por aí. Nos impede de prestar atenção nos sons da cidade, no grito de um camelô para os outros camelôs, assim que o rapa acabou de passar: “isso, corre mesmo! Quem mandou a gente não estudar?” e todos riem. E eu também.

Nos impede de prestar atenção na vida ao entorno. O individualismo impera. É uma multidão de pessoas que não se dá conta de quanta vida e quanta beleza tem ao redor. Porque não dá tempo. Porque é muito stress. É medo da violência. É ansiedade.

E a simplicidade da vida vai pro saco.

Impressionante que só estando desempregada consigo voltar minha atenção ao que realmente importa.

Sou uma eterna turista na minha própria cidade. Sou uma Flâneur. Claro que Baudelaire, quando dizia que um flâneur era “uma pessoa que anda pela cidade a fim de experimentá-la” se referia à Paris, não a São Paulo. Mas consigo curtir muito a minha cidade. Com todos os seus defeitos. Com toda sua sujeira.

Mas eu amo.

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16 comentários sobre “Meus dias de paz

  1. Que lindo, ana.
    Eu quase não conheço São Paulo, só fui a trabalho e nem pude aproveitar a cidade.
    Confesso que fiquei curiosa depois desse post.

    aproveite a vida de desempregada, porque a de empregada tá TENSA aqui.

  2. Oi Ana. Comecei a ler o seu blog hj, por indicação de uma amiga. Acabei de começar o meu próprio e ela e aconselhou a ler alguns pra saber exatamente o que isso faz…ahahaa,briquedo novo em mão de criança velha é uma coisa!
    Achei bacana demais e vou procurar outros links no seu blog, devertidíssimo isso de se entreter com a vida do outro, as alegrias as desgraças…ah pera lá tbém né, desgraça não, infortúnio, vc é criativa demais pra ficar presa á um trabalho administrativo. Essa é a grande merda de ser artista…complicado achar um lugar ao sol nesse mundo cada vez mais chato e corporativo.
    Descobrir o quevamos fazer da vida é sempre a grande questão, mas não desanime vc dá pra coisa e fazer o que se ama sempre dá ibope!

  3. Ah, eu concordo contigo, quando se tem mais tempo livre ou se está desempregada podemos fazer as coisas mais triviais com tranquilidade e realmente podemos admirar a cidade de outra forma. Às vezes quando saiu durante a tarde fico pensando pra onde as pessoas estão indo, o que estão fazendo, porque estão nas ruas e não trancadas num escritório…rsrsrs…como se elas tivessem obrigação disso né? rsrsrs..

  4. Bruna disse:

    Cara, até me arrepiou!! Juro que a época que eu estava desempregada tinha a mesma visão, a mesma sensação que vc, tudo era mais bonito, andar de onibus era passeio, ter tempo para observar as coisas e pessoas!! Trabalho realmente faz mal para algumas pessoas!! rs

  5. eu AMO minha São Paulo!
    Não troco por nada! JAMAIS!

    adoro esse cinza essa garoinha que cai do nada…a correria frenética..ai Sampa!

  6. Como algumas pessoas aí em cima, tb pensei nisso, tb lembrei de qdo parei de trabalhar, e tinha todo o tempo do mundo pra olhar os jardins e as pessoas lavando a calçada – de dentro do bus. Naquela época, logo qdo a depressão ia passando devagarinho, eu fazia estágio num bairro mto bonito, cheio de jardins, árvores…e era uma benção a quase 1h de ida e volta de ônibus, vigiando o mundo pela janela. E eu ainda por cima ouvia música, o que deixava tudo mais mágico. Na época eu não percebia, mas hj eu olho pra trás e vejo qto minha recuperação foi sutil, mas forte, naqueles dias.

    Hj eu ando de moto por aê, a vida ficou infinitamente mais rápida e mais fácil…e eu sinto falta desses dias. E, sabe? isso dá um post!rs

    =*

  7. Oi, Ana!
    Eu não sou de Sampa, mas tenho parente aí e volta e meia ando indo a trabalho. Mas naquele esquema: descer em Congonhas, ir pro escritório, voltar pra Congonhas e chegar em casa. Não conheço nada da cidade, mas adoraria. Não sei se moraria aí, pq é uma cidade que me assusta, mas a possibilidade de flanar na cidade me anima.
    Bjo!

  8. Nossa, você foi longe!
    Eu queria ser mais turista na minha cidade do que sou. Aliás, até pensei em abrir um blog sobre isso, pra ver se me animava sair turistando em São Paulo um pouco mais e postando no brógui.
    Realmente quando estamos indo e voltando do trabalho é difícil perceber as coisas, de tão cheia que a cabeça está.

    Meu “Turismo” em São Paulo limita-se a Av. Paulista. AMO! Às vezes vou lá de domingo só pra caminhar e visitar as inumeras feirinhas. O Trianon, o Masp, o Conjunto Nacional, a casa das rosas…comer pão de queijo no espaço unibanco da consolação! eu poderia viver alí pra sempre! E tem outro lugar que não lembro o nome, mas é uma construção antiga, bem desgastada pelo tempo, onde rola uma feirinha muito bacana aos domingos. Lá tudo é reciclado, tem puff feito de pneus, poltrona feita de sombreiro de telefone publico (orelhão) e por aí vai. Até no banheiro é tudo assim, muito bacana….e lá dentro tem uma sessão de cachorros e gatos pra adoção, AINNN. Todos com aquele carinha triste! da vontade de levar todos pra casa.

    Mas voltando ao assunto. Não adianta. Não consigo levantar da cama num SABADÃO pra ir dar rolê no centro antigo. E olha que acho tudo por lá muito lindo. Mas quando lembro do MEDO que sinto de andar lá, do cheiro de mijo…desanimo total.

    Outra vergonha: não conheço nem o Copam, o Edifício Itália, nunca subi na torre do Banespa…
    Arrisco dizer que turisticamente falando, conheço melhor Buenos Aires do que São Paulo..rs
    Cá entre nós, nosso “Obelisco” alí perto do Parque Ibirapuera é muito melhor localizado que o Obelisco argentino. Às vezes me pergunto porque tenho foto no Obelisco argentino e não no nosso….hahah

    Froids!

    Mas que bom que você está conseguindo curtindo esse “período”!

    • anamyself disse:

      Hey Bel!

      Sempre tive curiosidade de entrar na tal construção antiga da Paulista, onde rola a feira de coisas recicladas. Nem sabia que era isso que rolava lá!
      Boa dica. Um dia visito.
      Eu só conheço o edifício Itália pq um amiga trabalha lá. Mas nunca entrei no Copam tb. Não conheço a Pinacoteca, não conheço O MERCADO MUNICIPAL! Nunca fui na 25 de março!!!

      Sou uma turista fajuta 😛

  9. Ah!. O lugar é montado a base de coisas recicladas, mas o que vende lá não é reciclado não!!!

    Tem roupas, bijuterias, bolsas, doces, comida….artigos estilizados, como relógios de parede feitos de disco de vinil e por ai vai! Em sua maioria, coisas com um Q de artesanais, que não se encontra em qualquer loja. É tudo fofo e da vontade de comprar tudo, hahaha..

    Tbm não conheço a pinacoteca e o mercadão, mas 25 de março é crássico uma ida lá 1 vez por ano, pra renovar as bijuterias, hHAHAHAH

  10. Pq eu nem vou comentar que mal conheço o meu bairro a minha cidade que é BH então… rsrsrsr

    MAs uma coisa eu gosto muito de ir no centro de BH adoro… seja por que motivo for… tem um clima tão gostoso, acho que todo centro é assim…

    Aqui temos o parque Municipal, a praça da Liberdade que são points obridatórios né… mas tem mais um monte de lugar super bacana que eu nunca entrei… rsrsr

    Mas um dia entro… E quando for a SP de contrato de guia turistica tá?

    beijos

  11. Bel disse:

    Ah, minha cidade é minúscula perto de Sampa, mas mesmo com fedor de mijo e mendigos (aqui tb tem!) eu AMO! E sou uma turista fanática, conheço tudo e mais um pouco… se quiserem (você e Bel) conhecer Ilhéus… aqui vcs vão ver a vida passando devagar, e com cheiro de maresia, dendê, chocolae e terra molhada.

    Não conheço Sampa, mas amo por tabela. E quero ir passar uns dias assim, flanando baudelerianamente. Fizemos isso em Paris… ai ai, que delícia…

    Beijoooo, tô de volta!

  12. Bel disse:

    Ah, eu não tô desempregada, mas “tô” bolsista da CAPES, então tenho tempo pra esses pequenos prazeres. (E depois me lasco com os prazos da dissertação!!!)

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