Lá em casa

Minha relação com os meus pais é estranha. Tudo na minha vida é estranho, já me conformei com isso.

Eles são, ao mesmo tempo, liberais e conservadores.

Liberais porque nunca tive restrições quanto a hora de voltar pra casa, eles nunca ficaram me torrando pra saber onde ir, com quem ia, que horas voltava… Quando tinha uns 14, 15 anos, via amigas da minha idade sofrendo ao ter que voltar pra casa às 22h. Eu não. Voltava a hora que quisesse, dormia a hora que quisesse, desde que fosse responsável ao ponto de conseguir ir pra escola no dia seguinte.

Eles acreditam que viajar é uma das melhores formas de se adquirir conhecimento. É genético isso. Meu pai sempre viajou muito, sempre preferiu gastar em passagens aéreas do que em carros ou apartamento. Ele investiu em mim desde sempre. Viajei para muitos lugares, desde pequena.
Eles não me obrigaram a fazer administração, direito ou faculdades que supostamente dão dinheiro.
Não tentaram me enforcar quando eu fiquei de DP em química no colegial, porque sabiam que não era a minha.
Além disso tudo, eles me ensinaram a vida toda que eu precisava me virar. Nada de carona a hora que eu quisesse, nada de ligar pra mamãe pra pedir arrego.

Sou filha única, mas estou longe de ser mimada. Ouvi muito mais NÃO do que SIM na vida.
Meus pais nunca me deram razão quando um professor ia reclamar de mim. Não me davam razão quando eu ia reclamar da escola. Isso por um lado me tornou forte e independente, mas na infância me destruia. Hoje sei que um apoio deles seria fundamental naquela época, mas não houve. Tive que me virar. Por outro lado, se eu não tivesse me fodido do jeito que me fodi, não seria quem sou hoje.

Por outro lado, meus pais são conservadores ao extremo em relação a assuntos íntimos. Morreriam de saber que eu conto minha vida inteira em um blog nada anônimo. Lá em casa nunca rolaram papos sobre sexualidade, sobre primeiras experiências e o que for. A gente conversa – e briga – bastante. Gosto muito de ficar em casa. Mas lá não é lugar para falar de assuntos reservados. Não é lugar para confissões.

Cresci com isso, e nunca senti falta. Talvez, insconscientemente, eu até sinta. Mas bem lá no fundo.

Não me imagino sentando com a minha mãe e falando de que bosta que é viver solteira . Até porque, se eu fizer isso, o mais provável é que ela venha jogar meus defeitos na minha cara, dizendo que é porque eu sou gorda, porque eu sou largada e blábláblá. Então, me digam se não é melhor ficar quieta e desabafar na mesa do bar, na terapia, no blog?

Meu pai, se eu falo que estou enjoada, ele diz para eu me virar. Ele tem horror a doença. Tem nojo de tudo. Tem horror a portas abertas em casa.

Então a gente fica nessas. Senta na sala com a Globo passando novela, fala de comida, programa o fim de semana, reclama do trabalho, planeja novas compras, viagens e afins, comenta as notícias do dia, fofoca sobre a vida de alguém… Super delícia, mas nada íntimo. NADA.

Nunca contei nada pra minha mãe. Ela só soube que eu menstruei, aos 11 anos, porque minha avó contou a ela. Aliás, constrangimento total a minha primeira menstruação, leiam lá no Corporativismo Feminino. Eu nunca contei de rolos, beijos, baseados, sexo, paranóias. Nem pretendo. Primeiro porque não tenho abertura para isso. Depois porque… E o medo de tomar patada?

Não lembro de ter falado “eu te amo” pros meus pais. Minha mãe também não é de demonstrações de afetividade. Mas, meu pai, ultrapassa o suportável. Fala “eu te amo” o raio do tempo inteiro. Se eu fosse minha mãe, surtaria. Opa, minha mãe já é surtada! Mas isso é assunto pra outro post.

Sorte que temos a Maggie, que absorve todo esse amor e carinho dele, porque realmente enche o saco. Já viram, isso? Amor encher o saco? Pois é, lá em casa enche o saco. É é 8 nou 80. Nada da minha parte ou da minha mãe, TUDO da parte dele.

Na real, existem milhões de buracos bem mais embaixo, em relação à vida lá em casa, mas outro dia conto.

Impressionantemente, falar dessas coisas não me incomoda tanto. Não me enche o olho de lágrimas, como o assunto do post anterior.

E como é a relação de vocês com seus pais? Sei um pouco de alguns, mas me contem mais. Sei que muitos se identificam com as minhas desgraças.

Obrigada pela atenção, pelos comentários, por tudo.
Amo muito esse blog, amo meus leitores, amo o apoio que recebo.

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O mundo não é pequeno. É um ovo.

E quando eu digo mundo, não falo só em Brasil. Falo em MUNDO, mesmo. Vejam bem que bizarrice aconteceu no trabalho.

Eu tava escrevendo uma matéria, aí uma das fontes com quem eu teria que falar era João das Couves, digamos. Se tem uma coisa que eu aprendi, é a não citar nomes. Enfim.

Esse nome me era familiar. Não é um nome DIFERENTE, mas definitivamente não é um José da Silva.

Daí fui fuçar. E comecei a desconfiar de que eu conhecia mesmo o cara. Vi uma foto, porque o cara virou mega importante, tá cheio de menções a ele na internet. Definitivamente era quem eu pensava.

O cara era meu roommate durante minha temporada em Toronto, no Canadá. Ficou na mesma casa que eu. Mas calma que piora. Eu, ele e mais 2 brasileiros alugamos um carro e fomos conhecer pedaços do Canadá (Montreal, Quebéc, Ottawa). Nós 4. Para resumir a ópera: era um desses meninos nas fotos. Find out.

Ok, viagem bizarra, cheia de acontecimentos ótimos, outros não tão agradáveis, muitos que dá uma senhora vergonha de lembrar. Como estamos falando da MINHA vida, é lógico que eu contei em detalhes a viagem aqui. Mas ACHO que tive a decência de manter em segredo as partes mais vexatórias.

Para que não gastem seu precioso tempo: brasileiros jovens no exterior, bebida, papos de sexo (SINCE EVAAAAAAAA, yep) pra lá, papos de sexo prá cá… Mas não terminou muito bem, não, na verdade. Mas graças ao João das Couves, o mal maior foi evitado. Pois é, ainda por cima devo a ele um pouco da minha dignidade, vê se pode.

E o cara tá lá. Gerente de uma área foda de uma multinacional FODA. E eu falei com ele. Me identifiquei como Ana, por via das dúvidas. Nah, não acho uma boa idéia ele lembrar daquela viagem.