♪ There’s a hole in my soul ♪

“E aí, tudo bem?”

Estou com uma imensa dificuldade de responder a essa simples pergunta retórica. Não tá tudo bem. Tô mal, tô triste, tô desmotivada, poucas coisas me animam. Só queria que o mundo parasse um pouco para eu ficar na cama chorando por dias seguidos. Não, não tô bem.

Não consigo lembrar de um período tão prolongado em que eu passasse tanto tempo chorando ou reprimindo choro.

Já tive muitas crises de tristeza na vida, mas não dessa forma. Há meses não tenho ânimo para absolutamente nada. Para terem uma noção: desisti de viajar no fim do ano. Não quero ir pra lugar nenhum, viagens já não são suficientes para diminuir o buraco dentro de mim.

Para toda a humanidade, tá tudo ok na minha vida. De fato, não posso reclamar da grande maioria das coisas. Trabalho? Não amo, mas é o melhor que eu poderia ter, sem a menor sombra de dúvida. Não me sobrecarrega, não me estressa, não me mantém acordada a noite. Dinheiro? Moro com meus pais, então meus gastos são basicamente comigo, tipo pagar terapia (sim, desde o começo do ano tô na terapia), internet, coisas do dia a dia. Como sou filha única, vou herdar tudo (não é muito, mas o suficiente para eu não morrer de fome na velhice). Além disso, guardo uma grana para eventualidades. Amigos? Ok. Tenho muito menos contato com eles do que gostaria, mas eles são muito importantes para mim. Aliás, os botecos não tão frequentes com eles são alguns dos poucos momentos em que não estou na melancolia completa (sim, o álcool ajuda muito). Saúde? Bem, obrigada. Família? Nem bom nem ruim. Vamos nos tolerando, algumas brigas tensas, períodos de calmaria. Comparando com os períodos realmente horrorosos que já vivemos, tá até ok.

O que nos resta? Sim, sim. Amor. Afeto.

Aí você vem me dizer: TODO ESSE DRAMA POR CAUSA DE HOMEM?

Se você realmente quer fazer Olimpíadas de Sofrimento, talvez possa parar por aqui e vazar.


Olha só: são 30 anos, provavelmente metade da minha vida, sem afeto, carinho, amor. De nada, de ninguém. Exagero? Você realmente precisa ler/reler esse post e esse post para tentar compreender como foi minha infância e minha adolescência. Claro que meus pais têm consideração por mim, gostam de mim da forma deles. Tô morando com eles até agora, né? Mas nunca expressaram isso. Nunca tive alguém com quem contar, para quem desabafar, sabe?

Daí a pessoa cresce e começa a desejar afeto. Deseja se sentir amada por alguém. Só que isso nunca acontece. 30 anos desejando um pão inteiro e não recebendo nem migalhas.

Daí a pessoa desenvolve uma compulsão alimentar fodida. O chocolate (inteiro) antes de dormir é o símbolo do que eu mais sonho: alguém para me abraçar antes de eu pegar no sono, e dizer que vai ficar tudo bem. Comfort food.

E daí a pessoa engorda, autoestima já no chão fica ainda pior… etc etc.


Semana passada fui visitar o bebê recém-nascido de uma grande amiga. Assisti o vídeo do parto (humanizado, em casa, com doula e tal). Emocionei. Chorei. Na hora, a emoção foi pela felicidade deles, pela realização do sonho deles. Assim como chorei no casamento. Em todos os casamentos que já fui, na verdade. Chorei até vendo o primeiro beijo de uma amiga no cara por quem ela era apaixonada há anos. A felicidade alheia me comove muito. Às vezes até parece que eu fico mais feliz pelas pessoas do que elas mesmas!

Só que, depois, voltando sozinha pra casa, bateu a realização de que eu não sei se quero casar e ter filhos. Eu não me permito sonhar com isso. Não consigo nem ter alguém pra estar ao meu lado, me abraçar e me sentir amada! Que dirá CASAR E TER FILHO. Daí fiquei revendo aquele vídeo do parto na cabeça… E pensei: eu até poderia ser mãe solteira. Mas QUEM estaria do meu lado no parto? Aliás, quem estaria do meu lado a qualquer momento da minha vida?
Isso mesmo. Ninguém. Não tenho ninguém. Essa dor da solidão é avassaladora e ocupa um espaço cada vez maior dentro de mim.

E é claro que isso afasta ainda mais as pessoas.


Por tanto, sou extremamente vulnerável e carente. Se alguém me dá uma migalha de afeto, eu me jogo de corpo inteiro. E sempre penso “dessa vez será diferente”. Mas nunca é. De modo que cada decepção dói de uma forma quase insuportável. Me derruba.

Imagina. Cada cidadão com que saio, que parece se interessar por mim, pela minha vida, será inevitavelmente fonte de um sofrimento grande. Mais um pra conta. Mais um tijolinho na muralha de amargura, que é como eu me sinto.

Não era pra gente sofrer cada vez menos com essas coisas? Criar uma casca, ou algo assim? Talvez, se você é uma pessoa “normal”. Mas pra mim, não. Me sinto cada vez mais sozinha, cada vez pior.

E daí, com esse psicológico cagadíssimo que só piora dia após dia, achei uma boa ideia me envolver com alguém que já tinha uma mínima noção do meu estrago emocional (geralmente as pessoas não tem ideia de como sou). Dói pra caralho pensar que das únicas DUAS boas semanas que tive em 2016, uma delas foi por causa dele. Pq? Acreditei mais uma vez que dessa vez seria diferente. “Ele me compreende. Pode me ajudar. Me dar um apoio”.

AHÃN. VAI NESSA, TROUXA.

Não vou entrar em muitos detalhes, disse que não iria o expor e não vou, até pq ele não foi um babaca.

Ele agiu como boa parte da população age com pessoas que carregam uma dor muito grande: se distanciando. Compreendo. Não é fácil lidar com toda a carência e atenção que eu demando. Sei que me excedi. Praticamente perdi contato com uma pessoa que sempre foi legal comigo, que me fazia bem.


Sabe o que é foda? É saber que muita gente (no universo de meia dúzia que o google vai mandar pra cá por conta de alguma tag bizarra) que vai ler isso vai achar que sou ridícula e que o drama é, sim, por causa de homem. Olha, pode até ser. A rejeição de toda a espécie humana por mim. Aí faz sentido.

Não guardo (tanta) mágoa de um bofe ou outro. Guardo mágoa da somatória de toda a rejeição que já sofri em todas as relações familiares, amorosas e afetivas na vida.

Você tem noção do que é sentir inveja de um mendigo, que não tem um puto, fodido na vida, mas tá ali dormindo debaixo da marquise abraçado com outra fodida? Bem vindo à minha vida.


Hoje minha psicóloga me encaminhou para um psiquiatra, para confirmar o diagnóstico de depressão e me medicar.

Então. Não, não tô bem.

Malz aí o desabafo.

Às vezes sessões de 45 minutos de terapia são insuficientes…

Do alto dos meus 17 anos

Alguém andou lendo os arquivos antigos do meu blog – posts dos anos de 2003 e 2004. Aí fiquei curiosa e fui ver quais posts estavam sendo lidos.

Fazia tempo que eu não analisava o meu eu de 16, 17, 18 anos. A primeira conclusão que tiro é a de que a quantidade de palavrões ultrapassava em 1000% o que seria o ideal. Todos sabem que defendo palavrões para complementar determinadas emoções – só um PUTA QUE PARIU de boca cheia para aliviar um pouco a dor de bater o cotovelo na quina da mesa. Só um FILHO DE UMA PUTA DO CARALHO para exprimir meus sentimentos acerca de um cidadão que maltrata um cachorro.

Enfim.

Mas, naquela época, era ridículo. 90% de uma frase minha era composta de palavrões. Porque, né. Eu era uma revoltada, gente. O mundo continua injusto e cruel, mas naquela época eu, adolescente, sonhava com o anarquismo e com a justiça feita com as próprias mãos. Ou quase isso.

O fato é que fui lendo e ficando com vergonha. Até que achei um post GENIAL. Bastante redundante com o que sempre falo: “sou gorda” blábláblá, “minha auto-estima é nula“, blábláblá, “ninguém me ama” blábláblá. Não que o blábláblá mostre desmérito pelo meu sofrimento – não é fácil ser eu, se você quer saber – mas mostra que eu conheço bem onde o sapato aperta, e isso me machuca desde sempre.

Enfim. Daí que eu achei um texto que era igual. Mas diferente. Igual porque tem toda essa dose auto-estima nula que me acompanha pela vida, mas diferente porque… Sei lá porque.

Você, que vai ler. Favor ignorar minha linguagem xula, miguxa e adolescente. O post na íntegra (cortei inutilidades) – e os comentários, EXCELENTES – estão aqui.

DESABAFO:

Hj eu tô mal… O dia hj foi uma merda… Um dos piores dos últimos tempos…

Bom, nesses dias passados, não aconteceu porra nenhuma. Ah, a gente decretou SEMANA DO SACO CHEIO semana q vem. 9 dias pra vagabundear! Eu tô mó eskisita, kda vez + d saco cheio d td. Teve prova de kimik (me fudi) e prova de biologia (me fudi). Foda-c. Q c foda a escola. Q c foda o mundo. Cansei de estudar tanta merda inútil. PORRA DO CARALHO! Tô stressada d+! Ou, gente ó a situação: hj é dia 11, dia 31 é o último dia d inscrição da PUC e eu num tenho nem idéia do q prestar! Eu sou uma vagabunda msm! PORRAAA!
Hj é niver do Lê… Parabéns Lê… T adorooooo!

Hj foi assim: Acordei 8:30 da manhã. + é 1 caralho msm. Daí tava uma chuva e um frio do caralho, mó bom pra dormir. Só q eu tinha q ir comprar o ingresso do Metallica. Meu pai me levou. Chegamos lá e tava chovendo mto, mto frio e uma fila gigantescaaaaaaa, q ia até atrás do credicard! BUCETA ARROMBADA! Eu fiquei puta, e desisti. Nem fudendo ia fik numa fila 3 hras pegando chuva e sem porra nenhuma pra fazer. Daí fui com meu pai no shopps morumbi. EU ODEIOOOO SHOPPINGGGGG! E tava cheio pra caralho, e teve q parar na parte descoberta do estacionamento. Porra. Fui na saraiva mega store v c tinha o ingresso do metallica. Tinha. Sabe qnt? 105 conto! VAI TOMÁ NO MEIO DO CUUUU! Fiquei + puta ainda. Meia só no credicard. Meu pai disse “foda-c” e foi comprar uma carteira. Eu fiquei puta com ele, com a chuva, com o ingresso. E claro, com o shopping lotado d criança chata e d menininhas bonitinhas putinhas e d mulheres nojentas. Me deu crise d choro. Eu não chorava há um tempo considerável. + hj tirei a diferença. Fiquei lá, encostada num canto do shopping lotado, mto puta da vida, sozinha, chorando até os 5°. Daí passavam as “barbieszinhas” gostosinhas bonitinhas q usam roupa d marca e ficavam olhando… Vai tomá no cuuuuuuu! Q porra do caralho! Esse merda desse país capitalista consumista shoppinzeiro do caralhoooo! Esse monte de barbies fúteis d merda… E chorei, e chorei + e +. Meu pai ainda gritou comigo bastante. Meu, tô vendo não t mais ingresso qnd eu for comprar. Eu me mato… Sério, eu não sei o q faço. Bostaaaaa!
Depois eu acalmei e tal. A não ser pelo fato d eu andar pelo shopping quieta, sem roupas d marca, e as pattyzinhas ficarem me olhando. Q vontade d mandar tomar no cu. Gente fútil, escrotaaa! Eu odeio esse tipo d gente! O raça desgraçada.
Ainda fui com meu pai no COMPRE BEM, q tava cheio até o cu, e tinha uma muié chata cantando músicas mto escrotas, e akele mto d bebê gritando, e akele cheiro d cc, akelas filas d 1 km… Vai c fudê!
Vim pra casa e fui dormir, pq eu já tava com dor d cabeça. Daí me deu mais uma crise d choro… Mais agora não foi d raiva. Deixa eu tentar explicar: eu me odeio e me amo… como assim? eu explico: Eu amo o meu jeito de ser, d falar, d viver, d pensar… Td… Internamente, estou plenamente satisfeita. Mais externamente… Dizem q “o corpo é o espelho da alma”. + eu não me enquadro nesse “dito”. Eu me odeio fisicamente. Sério. E é fisicamente q as pessoas t olham. E isso me irrita. Eu me odeio fisicamente, mas sei lá, foda-c, isso não importa pq eu tô mto satisfeita com “my mind”. Eu detesto ficar mto perto d qq pessoa, detesto q me olhem diretamente no rosto, ou em qq outro lugar, pq eu não gosto disso. Eu não gosto q fiquem me medindo, me olhando. Só quero q me ouçam, q me dêem atenção. Não gosto d nd desse corpo q “deus me deu” (láááá” dãrrr)… E não é emagrecendo ou melhorando a pele q isso vai adiantar. Q c foda meu, pra mim isso é o q menos importa, aliás, não me importa nem 1 pouco. E daí vem meus “amiguinhos” e ficam falando “pô, eu gosto d mina gata e gostosa e sei lá o q”. E daí eu penso: “Como existe tanta gente fútil no mundo”? Será q só eu no mundo penso assim? Pq pra td mundo o q importa é: “nosso, q cara lindu!” ou “nossa q olhos azuis fantásticos” ou “nossa q mina linda”! Pq ninguém nunca fala: “nossa, q cara engraçado” ou “nossa, q mina inteligente!” ou então “puxa, q conversa agradável”! Vcs querem corpinhos ou cérebros? Puta q pariu! Eu não sou bonita, nunca serei e me orgulho d não ser, pq td mundo bonitinho d+ é fútil, e não tem jeito. Já os feios, conquistam as pessoas pelas suas idéias, pelas suas conversas, pelos seus gostos, pelas suas risadas! E a bonitinha? Vai pra balada, “cata” um monte e pronto… E conversas? E planos? Tsc, tsc, tsc… Tô revoltada com td isso, mas é mto mais fácil fazer uma revolução do q mudar a cabeça das pessoas, ainda mais qnd c trata da maioria esmagadora da população mundial. Eu gosto do q eu sou e não do q o meu corpo diz q eu sou. Eu sou o q eu penso, o q eu falo, o q eu ESCREVO. E não um rosto, um corpo. O sistema tranformou as pessoas e suas emoções em mercadorias e td mundo c deixa levar por isso! Pq agora escolher uma pessoa pra ficar junto, é q nem comprar uma roupa: vc pega a mais bonita e leva! Mais eu não, nunca vou me conformar com esse tipo d coisa. Pq eu tenho cabeça. E sei q eu não sou a única q pensa desse jeito, mas uma das únicas. Admiro do fundo da alma quem pense assim. Quem não pensa assim (aliás, não pensa), desprezo…

E é isso. Esse foi um dos bagulho mais PUNK ROCK q eu já escrevi. Tô com o olho doendo e a cabeça latejando, mais agora eu sei d td, eu enxergo td.
Então chega… Nd d recados, nem música hj. Só quero paz.
Já escrevi td o q eu penso, com td a sinceridade q eu me orgulho em ter. E é isso.
Obrigado por ler…
Um bjão gente.

Tem coisas que eu mudaria hoje, por exemplo: existem bonitinhas legais. E existem pessoas que te admiram pelo que você pensa, e não por quanto você pesa. AMIGOS, são como se chamam. Mas enfim. Boa parte eu manteria.

E aí, aproveitando a deixa… Minha chefe elogiou horrores um texto meu hoje. Disse:

“Ana, tá mto boa sua matéria sobre o colecionador. Parabéns! Está boa mesmo, dá pra ver q vc gostou de falar com ele”.
Claro que isso me deixa feliz. Até porque achei a matéria fraca, mas foi legal mesmo falar com o tiozinho, super simples e humilde que coleciona a revista corporativa do trampo dele há 23 anos. Pra quê? Para ajudar nos trabalhos escolares das filhas! Me diz se não é fofo?
Elogios sempre vão bem. Elogios físicos inexistem e, quando ocorrem, eu desacredito. Tudo bem que ultimamente tenho lembrado que, olha, puxa, nem todo mundo pensa exatamente como eu. Então vai ver que alguém me acha bonita de verdade (porque eu não me acho, como vocês estão cansados de saber). Mas de qualquer maneira, me sinto muito bem em receber elogios que mexem com o meu intelectual. São mais profundos, sabem. Comentários de beleza são vazios. Se falo isso só porque não me elogiam fisicamente? NÃO. Pense a respeito: vaidade é uma expressão de inteligência?
Então é isso, meu caros. That’s all.
Obrigada pela força!

Bad esquisitíssima

Lembram quando eu falei do quanto sentia falta de um pessoal que um dia fora importantíssimo para mim, aqui?

Então. Sexta-feira 13 (aniversário do meu pai, aliás), um componente daquele grupo me ligou, chamando para tomar uma cerveja lá onde eles ainda moram. Nem pensei duas vezes: saí do trabalho, andei uns 20 min até a estação de trem, mais uns 40 min até fazer a baldeação para o metrô – lotado e fedido – , e quase 1h30 depois cheguei lá, no bairro da minha ex-escola, dos melhores amigos que tive na vida, de tanta história e tanta coisa…

Nunca medi esforços pelas pessoas que eu amo. NUNCA.

Fui a terceira a chegar, mas logo foi juntando todo mundo… Um chamou o outro, que chamou o outro… E finalmente, com 3 ou 4 exceções, lá estava o mesmo grupo de sempre, como se tivéssemos todos 15 anos de novo. Olhando eles todos, me deu uma felicidade tão grande… Tirava fotos mentais daquela mesa com todos nós juntos, diferentes de como éramos, mas iguais na essência. Vontade de abraçar todo mundo, de sei lá, de explodir de felicidade. É “amo tanto que até dói” literalmente.

E até expressei bastante o quanto estava feliz de todos estarem ali, aparentemente quase tão satisfeitos como eu. Era quase mágico.

Ok.

O lugar esvaziou, muitos dos nossos foram embora e os remanescentes foram para uma sinuca, meio longe de lá.

Eu amo sinuca. Mas jogo mal pra caralho. Geralmente acerto a bola, mas é só isso, também. Encaçapar é raridade. Uma vez ganhei o jogo, mas foi UMA vez. Na vida. Geralmente irrito meus parceiros, de tão ruim que sou. Até aviso antes de começar que eu sou “café-com-leite”.

Adoro sinuca, mas a maioria das vezes fico deprimida ao jogar, ainda mais com gente competitiva.

Enfim. Joguei pessimamente, foi ridículo. Me senti mal, até porque eles desencanaram do jogo no meio e resolveram começar de novo. Sem mim, lógico.

Enquanto isso, o cidadão que desencadeou aquilo tudo me chamando pro rolê (que, por sinal, foi minha obsessão da juventude) e que foi para a sinuca com a gente, desapareceu do mapa com uma amiga nossa. Ainda enquanto isso, toda a humanidade desejava minha outra amiga (amo ela, mas sair com ela implica em deixar sua auto-estima no chão). E eu lá, praticamente expulsa do jogo de sinuca, sozinha num canto. Não deu outra: me deu uma bad absurda, comecei a chorar por horas e horas a fio até que alguém percebesse. E formou-se a roda de piedade ao meu redor.

Uns achando que era por ciúme do outro que desapareceu com a menina (e só reapareceram para ir embora): CHECK
Uns achando que era uma bad nada a ver: CHECK
Uns achando que eu tava cansada e bêbada demais: CHECK (eram 5 e pouco da manhã)

Juntem mais uns mil motivos bestas, baixa auto-estima, solidão, carência, etc e a receita está pronta.

Eu sou RIDÍCULA. Primeiro: como posso ainda ter ciúme de um cidadão que nunca foi NADA meu, passados quase 8 anos da minha fase de obsessão por ele?

Segundo: POR QUE CARALHOS não fui embora depois do bar? Essas coisas nunca dão certo.

Gastei minha terapia de segunda-feira inteira falando sobre isso. Falei coisas impronunciáveis, mas uma até confesso:

minha vida inteira vi os meus amigos homens, que eu sempre admirei e idolatrei bem mais do que mereciam, dando a maior atenção para as minhas amigas (peitos/bundas/rosto bonito etc), e me tratando como uma X.

Isso cansa.

Queria UMA VEZ NA VIDA que me dessem mais importância, sabe. Até por não vê-los há tanto tempo. Queria UMA VEZ NA VIDA ter mais importância do que um rosto bonito ali, um peitão acolá.

O que vou falar é feio, mas é sincero: Não quero mais dividir meus amigos com elas. Ciúme mórbido, possessão doentia, não me importa. Me recuso a sair com eles de novo para formarem-se panelinhas ao redor das meninas bonitas, e eu sobrar.

Ridículo como tudo me afeta tanto, ainda. E dói. Ainda está tudo fresco. As mesmas crises de ciúme e possessão de coisas que nunca nem chegaram perto de serem minhas.

A noite começou maravilhosa. Um dos melhores momentos do ano aquele bar. Assim como esse outro em que, aliás, eu era a única mulher.

E aí a maldita sinuca estragou tudo.

No dia seguinte entro no Orkut e vejo um depoimento de um amigo falando de como a outra amiga estava linda, e como ela é um doce.

VONTADE DE MANDAR TOMAR NO CU, SABE.

Queria ser anônima, nessas horas.

Eu sei que todos os envolvidos neste post vão acabar lendo, mas isso é bom, porque eu jamais teria coragem de falar na cara deles. E no fundo eles sabem como essas coisas sempre me afetaram e afetarão.

Vida sofrida na escola

Minha vida na escola nunca foi muito fácil. Será que existe alguém no mundo que não foi maltratado na escola? Bom, eu fui. E MUITO. Um caso típico de bullying, que a minha escola de certa forma incentivava. Sério.

Nunca fui CFD. Sempre empurrei com a barriga a escola, raras vezes fiz lição de casa, mas acabava me dando bem nas notas. Mas era quieta. Não era tímida, mas excluída, considerada uma nerd.

contei que estudei boa parte da vida no colégio do bairro. E que metade do meu condomínio estudava lá também. Era um colégio grande, com 4, 5 salas por ano. Até a 4ª série, era QUASE suportável.

Nessa época eu tinha amigos na sala, até. Tinha o meu grupinho: Natália, Pâmela e Juliana. E tinha um tal de Bruno dos Santos, que era o terror dos professores e o terror dos alunos. Ele aloprava TODO mundo. Foi no meu aniversário de 10 anos e me fez chorar, me humilhou de forma discreta na frente da minha família e dos meus amigos. Vê se pode. Mas a justiça foi feita: no meio da 4ª série a professora anunciou, na frente de 30 e poucos alunos, que ele estava expulso. E todo mundo aplaudiu com entusiasmo.

Na 5ª série, tinha um repetente insuportável na minha sala. Igor. Ele se masturbava no fundo da sala. Um dia apertou meu peito na frente da professora, e a VADIA não disse nada, mesmo comigo uivando de ódio. Ela nos mandou aos berros à diretoria. A diretora ouviu a história. Ele rindo e ela achando normal. E disse para ele pedir desculpas. Ele pediu. E ELA o perdoou. Eu continuei o odiando. E ele continuou me zoando.

Na 6ª série até que era razoável. Sempre teve a turminha que me zoava até dizer chega. Humilhações das brabas. Mas o resto da classe até que era suportável. E tinha a Juliana (da 4ª série) de volta, e a gente acabou ficando super amiga de novo. Mas era duro aturar todos os meninos pagando o maior pau do universo para as metidinhas de cabelo listo, que faziam questão de PENTEAR no meio da classe. E eu na pior época do meu cabelo. De óculos. Sempre meio gorda. Dá pra imaginar, né.
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É nesse época que começam as festinhas. As ficadas. Preciso dizer que nunca fui em nenhuma, e que jamais tive qualquer relacionamento com algum menino da escola? Eu era uma excluída, considerada nada atreante e maltratada, mas ainda não tinha planos de explodir a escola e ver a cabeça de cada um deles pegando fogo. Ainda.

Na 7ª série entrou uma renca nova no colégio. A unidade 1 fechou (obras do metrô & stuff), e a galera foi pra nossa unidade. Minha sala só tinha gente nova. E era um bando de VAGABUNDA. Vagabunda mesmo. Ou marginalzinho. Mas eu nem sabia. Enquanto isso, eu continuava sendo zoada e humilhada por onde fosse. Mordia a ponta de um lápis e a vaca ali dizia para a classe toda ouvir que eu estava treinando como beijar. Levantava a cabeça e o filhodaputa ali gritava que não sabia como o Chris tinha ficado comigo, porque ele era até bonitão (era lindo, na verdade) e eu era horrorosa. Enfim. Desse nível pra baixo. Nunca foi nem um pouco fácil. Mas nunca tinha sido uma classe inteira.

Eu só tinha a Juliana. Eu e ela faziamos contagem regressiva dos anos pra terminar a fase escolar. Faziamos planos para destruir a escola. Fazíamos planos para foder as pessoas que nos humilhavam. Tudo por escrito. Na nossa famosa “carta do mês”. Até que um dia a vaca mais vaca da 7ª C resolveu vasculhar as coisas da Juliana sem ela saber – lógico. As minhas cartas pra ela estavam lá. Bom. Sessões das minhas cartas lidas em voz alta, com professor e tudo rindo, sabe. E todo mundo falando que a gente era lésbica, e que éramos horrorosas e blábláblá. 13 de setembro de 1999: um dos piores dias da minha vida. Chorei a tarde toda. Um misto de querer matar todo mundo (bem Columbine style) com uma tristeza, uma solidão, uma rejeição anormais. Sim, eu tinha amigos no condomínio. Mas no colégio era só a Juliana. Que tava na mesma situação que eu.

Aguentei mais 3 meses e sai daquela desgraça de colégio, amaldiçoando cada ser vivo que já pôs os pés lá. Porque ninguém me deixava em paz, simplesmente? Pq todo mundo tinha que jogar constantemente na minha cara que o meu cabelo não era liso, que eu era gorda, usava óculos, não era sequer cogitada pelos meninos? Já sei: para eu ser insegura pelo resto da vida. Parabéns, conseguiram. O foda é que vejo fotos daquela época e eu nem era assim tão gorda e tão estranha. Não mesmo. Só era deslocada.

Considerações importantes

QUASE chorei escrevendo esse post. Acho que é a primeira vez que boto isso tudo pra fora sem receio. Mas é impressionante como pensar na minha vida escolar de 1ª a 7ª série ainda me afeta. Ainda dói. Faz mais de 10 anos, mas o rancor tá sempre fresco. A sede de vingança perdura, também. Acho que eles conseguiram o que queriam: foder a minha auto-estima para sempre.

Nunca sai de lá por dois motivos: o primeiro é porque eu me sentia culpada. Não que eu achasse que merecesse aquela humilhação, mas pensava que onde estivesse, seria sempre rejeitada. Também porque meus pais não deixavam, achavam que aquele meu ódio todo era exagero. Eles nunca me defenderam, sempre deixaram que eu me virasse completamente sozinha nos meus problemas. Hoje acho isso ótimo, porque estou fortalecida contra muitas coisas que afetam demais a maioria das pessoas por aí. Mas, por outro lado, lidar sozinha com aquilo em plena puberdade era foda.

Sim, eu tinha os meus amigos no condomínio. O Chris, principalmente. Amigo, irmão, e mais, muito mais. Se bem que dentro de sua própria casa eu também sofria uma boa rejeição: sua mãe sempre me achou “baiana”, brega, feia, peluda, de cabelo ruim, e jogava na minha cara isso, com essas palavras.

Mas, acima de tudo, eu tinha a Juliana, que sofria comigo no Colégio Morumbi Sul. Nunca fomos as melhores amigas, temos algumas características peculiares que não batem para isso, mas sempre nos demos bem. É a amizade sólida que mais perdura na minha vida.

E aí, na 8ª série, minha vida mudou. Completamente. Mas isso é história para outro post.