Minha mãe – a pior história de todas

Alô, você que leu esse post aqui. Você já conhece um pouco sobre a minha relação com a minha família. Mas agora vou me aprofundar nisso. Vou falar da minha mãe.

Tá, você ama sua mãe, ela é a pessoa mais importante da sua vida, você deve tudo a ela.
Super te compreendo, camarada. Mas para mim é bem mais difícil falar isso. Claro que devo minha vida a ela, mas dizer que a amo e que eu devo tudo a ela… Não condiz muito com a realidade.

Minha mãe é louca. Não é autista e nem nada, mas ela tem uma personalidade complicada. Um gênio ruim. Pelos relatos da família e dos amigos antigos dela, ela sempre foi uma pessoa dificílima de lidar. Ela era possuída por surtos inexplicáveis, 99% deles agressivos e destruidores.

Ela sempre foi assim. Só que aí, lá pelos meus 12 anos, ela começou a beber. Tipo, MUITO. Ela sempre foi da cerveja, da caipirinha e tal, e sempre dava trabalho/vexâme. Mas não era alcoólatra. Ainda.

Lembro dela cozinhando e tomando uns goles de conhaque. Nada escondido. Ainda, novamente.

Só que as coisas foram se deteriorando.

Só culpa dela? Óbvio que não. Pessoas não se viciam em drogas só porque querem. Sempre tem um motivo escuso. No caso, os motivos eram vários. Da família complicada dela, o trabalho e o chefe fdp que a mandou embora, irmão mega problemático, meu pai com amizades inadequadas e eu teimosa e respondona e desse jeito que eu sou. Talvez eu tenha mais culpa ainda, mas não saberia indicar em quê.

O fato é que foi piorando, e piorando e piorando. Logo foi pra vodka, depois cachaça e nos últimos estágios antes do fim (isso acaba, se não eu nem contaria), pinga de garrafa de plástico. Daquelas que os mendigos tomam.

Eu falei que era uma história complicada.

O fato de ela se consumir em bebida não era o pior. Eu já disse que ela tem gênio ruim. Imagine uma pessoa com gênio ruim, super agressiva e bêbada.

Olha, eu devo estar na lista VIP do Open Bar do Céu, viu.

Bom, minha mãe passou uns 8 anos ou acordada, bêbada e surtando OU dormindo. Isso poderia ser às 2 da manhã, às 3 da tarde, às 8 da noite, nada a impedia. Escândalos pavorosos. Ela falava que eu era um monstro, uma gorda horrorosa, imatura, que só ia passar por desgraça na vida porque era isso que eu merecia. E daí pra baixo. Aparecia com facas, tentava nos dar garrafada…

NOS dar, porque lógico que eu e meu pai nos unimos contra ela. Ou nos uniamos, ou ela ia nos levar a morte. Sem exagero. Essa parte da minha vida não tem nem como exagerar. NINGUÉM além de mim e do meu pai tem uma noção do que foi essa época. E quando nos mudamos para perto da PUC, perto do centro de São Paulo, piorou o que parecia impiorável. 11º andar de um prédio com 1 apartamento por andar. Ela ameaçava se jogar ou jogar a mim, meu pai ou minha cachorra (!) dia sim, dia não. Por cerca de três anos, não desejei a ela nada que não a morte. Na verdade, ela já estava morta para mim há muito mais tempo.

E aí estava todo mundo dormindo, ela acordava a gente com tapas. Dava medo de dormir. Era stress puro.
A família sabia um pouco do que acontecia, mas ninguém entendia e nem tentava se meter. E aí ela ligava pras pessoas e começava a falar delas, tipo o que ela falava pra mim… Super agradável, vocês podem imaginar.

Nessa época, ela não comia mais. Se alimentava exclusivamente de álcool, e comprava umas ruffles de vez em quando. Tava magra, chupada, parecia morta-viva.

Não sei bem como consegui manter minha vida mais ou menos nos eixos, sendo que ela me acordava aos berros, me xingando, às vésperas do vestibular, sabem.
Mas consegui. Entrei na faculdade e sabia que o fato de voltar pra casa a noite, significava que insônia. Quem dormiria tranquilo com constantes ameaças?

Uma vez bati nela. Bati mesmo, de sair sangue e tudo. Ela tinha falado alguma coisa muito além do que costumava falar, não tenho nem idéia do que seja, mas aquilo me enxeu de ódio. Bati a cabeça dela contra o armário várias vezes, se meu pai não me parasse, não sei o que teria acontecido.

Mas foi só aquela vez. E não me orgulho. Mas assumo.

Então, no final de 2005, o irmão problemático dela morreu. 39 anos. Ele era gay, morava em Lisboa com um amigo, era alcoólatra e curtia umas drogas. E tinha uma vida bem intensa. VIVEU, sabem.
Ela sempre se identificou e tomou as dores do irmão quase 10 anos mais novo.

Só sei que a rápida evolução do quadro dele mexeu com ela. Fora que ela tava indo pelo mesmo caminho: já tinha tido uns desmaios pela rua, de fraqueza. Foi aí que ela procurou ajuda. Psicóloga encaminhou pro psiquiatra logo de cara (óbvio). Ela começou a tomar uns remédios tarja preta. E num intervalo de tempo surpreendentemente mínimo – tipo uma semana! – ela era outra pessoa. A alcoólatra maligna morreu, e apareceu uma mãe calma, abalada, abandonada e deprimida, que eu nunca tinha conhecido. Do álcool, passou para o chocolate – foi a recomendação do psiquiatra, trocar um vício pelo outro.

Meu pai ficou maravilhado e passou a dar todo o apoio. Eu não. Difícil perdoar e esquecer a mãe que ela foi pra mim por tanto tempo. Não que eu quisesse uma mãe-amiga como as que comentaram aquele post que eu citei no começo. Nós não somos disso… Mas. Né.

Ano passado, 2008, ela permanecia tomando vários remédios pesados. Aí, num certo domingo, enfartou. Foi pro hospital. Estado: grave. Poucos botavam uma fé. Meu pai ficou destruido, tinha certeza que ela morreria e que sua vida seria uma desgraça sem fim dali em diante.
Eu? Não chorei. Não cheguei nem perto disso. Primeiro porque sabia que ela não ia morrer. Não era lance de esperança,  nem fé: eu sabia, simplesmente. Me sentia estranha, porque faltava alguém em casa. Faltava a dedicação dela. Faltava alguma coisa…

E aí ela se recuperou. Naquelas. Agora ela toma 50 remédios para depressão/ansiedade e afins e outros 50 para coração, pressão, colesterol… E vive na inércia. Nada na vida dela a interessa suficientemente. Ela está fraca, não tem energia pra nada, e nem tenta.

Um dia desses, ela mandou um e-mail para o meu pai e deu para eu ler também. O e-mail falava que ela não via mais graça na vida, e que tudo que restava nela era amor e gratidão para o meu pai, para mim e para a Maggie.
Chorei.

Dói, sabe.

Chorando agora, também.

Pois é, gente. Vida complicada, a minha.

Anúncios