O dia em que assisti as gravações do Castelo Rá-tim-bum

Fui uma criança feliz. Moderada, dosava horas de escola com horas de sono, de brincadeira e de tevê. Gostava de ficar em casa assistindo Carrossel, Chaves, Glub-Glub, Mundo da Lua, A Pedra dos Sonhos, Ratimbum, Castelo Ratimbum, Anos Incríveis, Confissões de Adolescente, Doug e afins, como todas as crianças. Mas também gostava de usufruir a grande estrutura do meu condomínio – piscina, salão de crianças, parquinho, quadra e grande extensão de jardins e estacionamentos para brincar, se esconder e bagunçar.

Foi uma boa infância, definitivamente.

Lembro até hoje de quando estreou Castelo Ratimbum. Eu tinha uns 8 anos e estava doida para saber que tipo de papel minha tia, atriz, irmã do meu pai, faria.

No primeiríssimo episódio viciei. E continuei sem saber da minha tia, que só apareceu uns 3 ou 4 episódios depois, como a Caipora, ser mitológico habitante das florestas brasileiras.

CARACATAU!

Lembram do primeiro episódio da Caipora? Tá lá no Youtube:

Como 10 em 10 crianças que conhecia, eu era absolutamente apaixonada pelo Castelo Ratimbum. Nada me tirava da frente da televisão durante aquela meia-hora que durava o programa.

Foi aos poucos que saí contando aos amiguinhos que a Caipora era interpretada pela minha tia, Patricia Gaspar (agora ela usa um ‘p’ a mais no Gaspar, lances de numerologia). A maioria não acreditava. Minha tia, assim como tantos outros personagens, usava muita maquiagem, a ponto de ficar irreconhecível.

Só sei que um grande orgulho de infância era falar por aí que minha tia era a Caipora. Hoje, 15 anos após o programa parar de ser feito, me orgulho ainda mais de ter uma tia que fez parte da infância de milhões de brasileirinhos 🙂

Em 1995, com 9 anos, minha tia deu um jeito para eu dar uma passadinha no Castelo – conhecer os atores, o cenário e assistir um pouquinho das gravações.

Acredito que fui a única criança a conseguir essa proeza.

A acompanhei na maquiagem e caracterização, conheci o estúdio, os produtores, os atores, o “por trás das câmeras” e assisti a boa parte das gravações do episódio em que as crianças não querem comer frutas e verduras, e a Caipora os convence a comer. Não achei no Youtube.

Vocês não imaginam o quanto as fotos a seguir circularam. É MUITO ORGULHO!

Com Zequinha, Biba, Caipora e Pedro antes das gravações.

Com Nino

Com a bruxa Morgana, na sala de figurino – olhem ali atrás as roupas do Dr. Abobrinha!

Na maquiagem, com a peruca da Caipora

Com as crianças e a cobra Celeste! Observação: a parede-sofá que dava acesso ao quarto do Nino realmente funcionava! E o quarto dele, com as paredes tomadas por HQ? UM SONHO!

Produção de uma cena em que Nino fica forte porque come vegetais hehehe

Com a Caipora na escadaria que dava acesso ao quarto da Morgana (em outro estúdio)

Mais cenário: atrás de mim, a caixinha de música

Pois é, gente. Uma lembrança pra guardar pro resto da vida! E agradeço demais à minha tia por ter me proporcionado isso!

Minha mãe – a pior história de todas

Alô, você que leu esse post aqui. Você já conhece um pouco sobre a minha relação com a minha família. Mas agora vou me aprofundar nisso. Vou falar da minha mãe.

Tá, você ama sua mãe, ela é a pessoa mais importante da sua vida, você deve tudo a ela.
Super te compreendo, camarada. Mas para mim é bem mais difícil falar isso. Claro que devo minha vida a ela, mas dizer que a amo e que eu devo tudo a ela… Não condiz muito com a realidade.

Minha mãe é louca. Não é autista e nem nada, mas ela tem uma personalidade complicada. Um gênio ruim. Pelos relatos da família e dos amigos antigos dela, ela sempre foi uma pessoa dificílima de lidar. Ela era possuída por surtos inexplicáveis, 99% deles agressivos e destruidores.

Ela sempre foi assim. Só que aí, lá pelos meus 12 anos, ela começou a beber. Tipo, MUITO. Ela sempre foi da cerveja, da caipirinha e tal, e sempre dava trabalho/vexâme. Mas não era alcoólatra. Ainda.

Lembro dela cozinhando e tomando uns goles de conhaque. Nada escondido. Ainda, novamente.

Só que as coisas foram se deteriorando.

Só culpa dela? Óbvio que não. Pessoas não se viciam em drogas só porque querem. Sempre tem um motivo escuso. No caso, os motivos eram vários. Da família complicada dela, o trabalho e o chefe fdp que a mandou embora, irmão mega problemático, meu pai com amizades inadequadas e eu teimosa e respondona e desse jeito que eu sou. Talvez eu tenha mais culpa ainda, mas não saberia indicar em quê.

O fato é que foi piorando, e piorando e piorando. Logo foi pra vodka, depois cachaça e nos últimos estágios antes do fim (isso acaba, se não eu nem contaria), pinga de garrafa de plástico. Daquelas que os mendigos tomam.

Eu falei que era uma história complicada.

O fato de ela se consumir em bebida não era o pior. Eu já disse que ela tem gênio ruim. Imagine uma pessoa com gênio ruim, super agressiva e bêbada.

Olha, eu devo estar na lista VIP do Open Bar do Céu, viu.

Bom, minha mãe passou uns 8 anos ou acordada, bêbada e surtando OU dormindo. Isso poderia ser às 2 da manhã, às 3 da tarde, às 8 da noite, nada a impedia. Escândalos pavorosos. Ela falava que eu era um monstro, uma gorda horrorosa, imatura, que só ia passar por desgraça na vida porque era isso que eu merecia. E daí pra baixo. Aparecia com facas, tentava nos dar garrafada…

NOS dar, porque lógico que eu e meu pai nos unimos contra ela. Ou nos uniamos, ou ela ia nos levar a morte. Sem exagero. Essa parte da minha vida não tem nem como exagerar. NINGUÉM além de mim e do meu pai tem uma noção do que foi essa época. E quando nos mudamos para perto da PUC, perto do centro de São Paulo, piorou o que parecia impiorável. 11º andar de um prédio com 1 apartamento por andar. Ela ameaçava se jogar ou jogar a mim, meu pai ou minha cachorra (!) dia sim, dia não. Por cerca de três anos, não desejei a ela nada que não a morte. Na verdade, ela já estava morta para mim há muito mais tempo.

E aí estava todo mundo dormindo, ela acordava a gente com tapas. Dava medo de dormir. Era stress puro.
A família sabia um pouco do que acontecia, mas ninguém entendia e nem tentava se meter. E aí ela ligava pras pessoas e começava a falar delas, tipo o que ela falava pra mim… Super agradável, vocês podem imaginar.

Nessa época, ela não comia mais. Se alimentava exclusivamente de álcool, e comprava umas ruffles de vez em quando. Tava magra, chupada, parecia morta-viva.

Não sei bem como consegui manter minha vida mais ou menos nos eixos, sendo que ela me acordava aos berros, me xingando, às vésperas do vestibular, sabem.
Mas consegui. Entrei na faculdade e sabia que o fato de voltar pra casa a noite, significava que insônia. Quem dormiria tranquilo com constantes ameaças?

Uma vez bati nela. Bati mesmo, de sair sangue e tudo. Ela tinha falado alguma coisa muito além do que costumava falar, não tenho nem idéia do que seja, mas aquilo me enxeu de ódio. Bati a cabeça dela contra o armário várias vezes, se meu pai não me parasse, não sei o que teria acontecido.

Mas foi só aquela vez. E não me orgulho. Mas assumo.

Então, no final de 2005, o irmão problemático dela morreu. 39 anos. Ele era gay, morava em Lisboa com um amigo, era alcoólatra e curtia umas drogas. E tinha uma vida bem intensa. VIVEU, sabem.
Ela sempre se identificou e tomou as dores do irmão quase 10 anos mais novo.

Só sei que a rápida evolução do quadro dele mexeu com ela. Fora que ela tava indo pelo mesmo caminho: já tinha tido uns desmaios pela rua, de fraqueza. Foi aí que ela procurou ajuda. Psicóloga encaminhou pro psiquiatra logo de cara (óbvio). Ela começou a tomar uns remédios tarja preta. E num intervalo de tempo surpreendentemente mínimo – tipo uma semana! – ela era outra pessoa. A alcoólatra maligna morreu, e apareceu uma mãe calma, abalada, abandonada e deprimida, que eu nunca tinha conhecido. Do álcool, passou para o chocolate – foi a recomendação do psiquiatra, trocar um vício pelo outro.

Meu pai ficou maravilhado e passou a dar todo o apoio. Eu não. Difícil perdoar e esquecer a mãe que ela foi pra mim por tanto tempo. Não que eu quisesse uma mãe-amiga como as que comentaram aquele post que eu citei no começo. Nós não somos disso… Mas. Né.

Ano passado, 2008, ela permanecia tomando vários remédios pesados. Aí, num certo domingo, enfartou. Foi pro hospital. Estado: grave. Poucos botavam uma fé. Meu pai ficou destruido, tinha certeza que ela morreria e que sua vida seria uma desgraça sem fim dali em diante.
Eu? Não chorei. Não cheguei nem perto disso. Primeiro porque sabia que ela não ia morrer. Não era lance de esperança,  nem fé: eu sabia, simplesmente. Me sentia estranha, porque faltava alguém em casa. Faltava a dedicação dela. Faltava alguma coisa…

E aí ela se recuperou. Naquelas. Agora ela toma 50 remédios para depressão/ansiedade e afins e outros 50 para coração, pressão, colesterol… E vive na inércia. Nada na vida dela a interessa suficientemente. Ela está fraca, não tem energia pra nada, e nem tenta.

Um dia desses, ela mandou um e-mail para o meu pai e deu para eu ler também. O e-mail falava que ela não via mais graça na vida, e que tudo que restava nela era amor e gratidão para o meu pai, para mim e para a Maggie.
Chorei.

Dói, sabe.

Chorando agora, também.

Pois é, gente. Vida complicada, a minha.

Lá em casa

Minha relação com os meus pais é estranha. Tudo na minha vida é estranho, já me conformei com isso.

Eles são, ao mesmo tempo, liberais e conservadores.

Liberais porque nunca tive restrições quanto a hora de voltar pra casa, eles nunca ficaram me torrando pra saber onde ir, com quem ia, que horas voltava… Quando tinha uns 14, 15 anos, via amigas da minha idade sofrendo ao ter que voltar pra casa às 22h. Eu não. Voltava a hora que quisesse, dormia a hora que quisesse, desde que fosse responsável ao ponto de conseguir ir pra escola no dia seguinte.

Eles acreditam que viajar é uma das melhores formas de se adquirir conhecimento. É genético isso. Meu pai sempre viajou muito, sempre preferiu gastar em passagens aéreas do que em carros ou apartamento. Ele investiu em mim desde sempre. Viajei para muitos lugares, desde pequena.
Eles não me obrigaram a fazer administração, direito ou faculdades que supostamente dão dinheiro.
Não tentaram me enforcar quando eu fiquei de DP em química no colegial, porque sabiam que não era a minha.
Além disso tudo, eles me ensinaram a vida toda que eu precisava me virar. Nada de carona a hora que eu quisesse, nada de ligar pra mamãe pra pedir arrego.

Sou filha única, mas estou longe de ser mimada. Ouvi muito mais NÃO do que SIM na vida.
Meus pais nunca me deram razão quando um professor ia reclamar de mim. Não me davam razão quando eu ia reclamar da escola. Isso por um lado me tornou forte e independente, mas na infância me destruia. Hoje sei que um apoio deles seria fundamental naquela época, mas não houve. Tive que me virar. Por outro lado, se eu não tivesse me fodido do jeito que me fodi, não seria quem sou hoje.

Por outro lado, meus pais são conservadores ao extremo em relação a assuntos íntimos. Morreriam de saber que eu conto minha vida inteira em um blog nada anônimo. Lá em casa nunca rolaram papos sobre sexualidade, sobre primeiras experiências e o que for. A gente conversa – e briga – bastante. Gosto muito de ficar em casa. Mas lá não é lugar para falar de assuntos reservados. Não é lugar para confissões.

Cresci com isso, e nunca senti falta. Talvez, insconscientemente, eu até sinta. Mas bem lá no fundo.

Não me imagino sentando com a minha mãe e falando de que bosta que é viver solteira . Até porque, se eu fizer isso, o mais provável é que ela venha jogar meus defeitos na minha cara, dizendo que é porque eu sou gorda, porque eu sou largada e blábláblá. Então, me digam se não é melhor ficar quieta e desabafar na mesa do bar, na terapia, no blog?

Meu pai, se eu falo que estou enjoada, ele diz para eu me virar. Ele tem horror a doença. Tem nojo de tudo. Tem horror a portas abertas em casa.

Então a gente fica nessas. Senta na sala com a Globo passando novela, fala de comida, programa o fim de semana, reclama do trabalho, planeja novas compras, viagens e afins, comenta as notícias do dia, fofoca sobre a vida de alguém… Super delícia, mas nada íntimo. NADA.

Nunca contei nada pra minha mãe. Ela só soube que eu menstruei, aos 11 anos, porque minha avó contou a ela. Aliás, constrangimento total a minha primeira menstruação, leiam lá no Corporativismo Feminino. Eu nunca contei de rolos, beijos, baseados, sexo, paranóias. Nem pretendo. Primeiro porque não tenho abertura para isso. Depois porque… E o medo de tomar patada?

Não lembro de ter falado “eu te amo” pros meus pais. Minha mãe também não é de demonstrações de afetividade. Mas, meu pai, ultrapassa o suportável. Fala “eu te amo” o raio do tempo inteiro. Se eu fosse minha mãe, surtaria. Opa, minha mãe já é surtada! Mas isso é assunto pra outro post.

Sorte que temos a Maggie, que absorve todo esse amor e carinho dele, porque realmente enche o saco. Já viram, isso? Amor encher o saco? Pois é, lá em casa enche o saco. É é 8 nou 80. Nada da minha parte ou da minha mãe, TUDO da parte dele.

Na real, existem milhões de buracos bem mais embaixo, em relação à vida lá em casa, mas outro dia conto.

Impressionantemente, falar dessas coisas não me incomoda tanto. Não me enche o olho de lágrimas, como o assunto do post anterior.

E como é a relação de vocês com seus pais? Sei um pouco de alguns, mas me contem mais. Sei que muitos se identificam com as minhas desgraças.

Obrigada pela atenção, pelos comentários, por tudo.
Amo muito esse blog, amo meus leitores, amo o apoio que recebo.

Sobre gostar demais das pessoas

Um dia, eu tive um problema sério: dava muito mais importância aos meus amigos do que eles davam a mim.
Num mundo normal, gostar demais não seria um problema, mas para mim era. Cresci cercada de gente fechada, com a maior dificuldade do mundo em demonstrar o que sente. Daqueles que não rolava abraçar COM GOSTO sem ficar um puta climão, como invasão de um terreno estranho.

Na minha vida reina a não-reciprocidade, desde sempre. Eu amo alguém? Esse alguém não me ama, pelo menos não da mesma forma. (Aí repete essa fórmula 500 vezes = story of my life).

Eu deixava de fazer muitas coisas pelos meus amigos. Sou mão de vaca pra cacete, mas sempre me senti bem pagando coisas para eles. Eu me doava 100%. Me compadecia com as histórias, sofria mais do que os protagonistas. Em suma: amava mais do que era amada.

Mas aí o tempo passou, eu cresci, e a distância e a idade adulta se impuseram, me tornando aquilo que eu temia: alguém com dificuldade de expressar o que sente – pelo menos face to face, pq não há vergonha na internet. Alguém que valoriza bem menos os amigos. Alguém que vai preferir ficar em casa vendo séries sozinha à sair com amigos para um rolê não tão interessante.

Como pode? Em que ponto minha vida ficou tão chata? Eu sempre fui meio anti-social, amante da privacidade e do individualismo, mas eu tinha vida social. Eu tinha AMIGOS. Meus dias poderiam ser um tédio, como o são hoje, mas não eram. Tinha sempre alguém sugerindo de pedir uma pizza, de ficar na frente do condomínio conversando, de ir até a padaria ou de ficar na escadaria do prédio falando merda. Não tinha como sentir esse vazio que eu sinto hoje.

Tenho amigos que eu gosto muito, mas não é a mesma coisa. Nunca me doei aos outros como me doava a esses.

Aí foi aniversário de uma das melhores amigas que tive na vida, segunda-feira. Ela que me aprimorou na arte de dizer “eu te amo” e de abraço de verdade – se bem que ela fala tanto “eu te amo” que até desvaloriza; ela secou minhas lágrimas, ouviu minhas lamúrias, soube enxergar cor no preto e branco. Muitas, muitas vezes. Anos e anos seguidos.
Enfim. Foi aniversário dela. Óbvio que ela não atende celular, essa é uma característica nata dela. Daí lá fui eu no quase falecido Orkut dar parabéns. Na mesma página do scrapbook, recados de dois dos que um dia foram grandes amigos: um era o ex namorado dessa citada, outro… hm, difícil definir o outro. Amor platônico da adolescência, destinatário de dezenas de cartas de amor (sim, já fui dessas… – na real duas pessoas receberam cartas de amor minhas… esse e um outro, também do mesmo grupo de amigos. Eu sou uma completa idiota).

E os parabéns deles eram tão vagos… Como se falassem com uma desconhecida.

Como foi que nos separamos desse jeito? Dói, cara. Dói de saudade de um tempo que já foi. E que não volta, infelizmente. A gente mudou, cresceu…
Um dia eu tive amigos, e amei esses amigos. De uma forma ou outra, eles me amaram também. Me fizeram rir da vida, me animaram com as piadas idiotas deles. O fato de estarmos juntos era o suficiente.

E hoje não nos conhecemos mais.

P.S.: nos viamos todos os dias. O tal amor platônico era meu vizinho de porta. E hoje sabe há quanto tempo não o vejo? 1 ano e meio. Os outros, vi há alguns meses. Mesmo que todos estejam diferentes, foi um dos pontos altos do meu 2009.
Outro fez facebook recentemente e entrou no Mafia Wars e no Farmville (dois dos meus grandes vícios atuais na internet). Aí a gente fica trocando presente e eu fico feliz.

Pergunta de um milhão de reais: QUÃO TRISTE E PATÉTICA EU SOU?

OgAAABffIJgLchBzDEYUwS9XN85Kzk0mp5cfxPjHFIPXn6DeDpgv_94NBblKvXINL8BEdAY7ZenTGoYR5vo057qKN0gAm1T1UMxhzH8pGUcBn9kC4WUBgR3h4yH3Aí meu eu atual volta pra esse dia e grita para todos: SE ABRACEM! DIGAM QUE SE AMAM! ISSO VAI TERMINAR LOGO.

Virei nerd. Beijo.

De alguma forma eu soube mesclar uma infância bem ativa brincando de polícia e ladrão, jogando bola, no parquinho, na piscina etc, com uma vida na frente da tevê. Assisti a todos os sucessos da Cultura que fez minha geração mais capaz do que a geração atual, tipo Glub Glub, Ratimbum, Castelo Ratimbum (oi, a Caipora é a minha tia e eu assisti a gravação de um capitulo!), Doug, Anos Incríveis, Confissões de Adolescente, além de Chaves, Chapolim, Carrossel… Isso sem contar as novelas da Globo. Não sei como eu conseguia dosar vida social com muita televisão, escola e sono, porque NUNCA dispensei uma soneca vespertina. Acho que pq nunca fiz balé, judô, inglês, o que seja. E agradeço aos céus por isso. Minha infância foi tudo.

Só sei que essa vida bem agitada era boa.

Já recentemente, com trabalho ocupando a maioria das horas do meu dia e com faculdade até o ano passado, fui perdendo minha vida social. Não consigo ser irresponsável a ponto de beber até cair se tenho que trabalhar no dia seguinte. Minha única ressaca em dia de semana foi forte o suficiente para provar isso: vomitar no trabalho NÃO é legal. Vomitar em qualquer lugar não é legal, mas como eu sou a rainha-mor dos PTs… Pelo menos evitemos eles durante a semana.

Enrolei para falar que essa vida de trabalhadora me tornou uma nerd. Não assisti nenhuma dessas séries que as pessoas assistiam no auge dos seus 12 a 15 anos – Friends, Dawson’s Creek, Buffy e mil outras. Porque eu gostava de passar a noite na quadra, na piscina, na casa dos amigos.

Só que comecei a trabalhar, a rotina mudou, veio a distância dos amigos que a vida adulta impõe e me joguei no que? NAS SÉRIES!

Comecei com Lost. Daí vi Heroes, que acabei desistindo no meio da 3ª temporada (trash demais). Ano passado, com TCC e trabalho de segunda a segunda, vi séries que nem uma louca como compensação. Vida social? Não rolou. Mas vi Prison Break, Dexter, Six Feet Under (melhor série do mundo) e tirei felicidade da ficção. Triste, não? Não sei. Mas me joguei na vida nerd com gosto. Tem muita série boa por aí. E a Stella me ajudou na escolha de quais séries assistir.

Esse ano piorou. Antes eu até lia bastante, mas agora só sei ver série. Tirei o atraso da adolescência sociável e vi todas as temporadas de Friends em tempo recorde. Agora estou assistindo The Office (para quem trabalha em escritório é ótima pedida), The Big Bang Theory, True Blood, Two and a Half Men (nem curto muito) e pretendo começar House e How I Met Your Mother.

Uma baita duma nerd.

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Se quiser saber o que escrevi sobre True Blood, Heroes e Six Feet Under clique nos links. Opiniões dadas no meu outro blog, o  .txt.

Ser ou estar gordo (To be fat)

obeso

Muitos gordos falam: Eu não sou gordo; estou gordo. Se fosse em inglês, não faria muita diferença, já que I’m fat pode significar tanto ser quanto estar gordo. To be fat: ser/estar gordo. Pois então.

No meu caso, sempre fui gorda. Às vezes muito gorda (tipo atualmente), às vezes até próxima da faixa de peso normal. Mas sempre gorda. Efeito sanfona entre quase normal e muito gorda desde, sei lá, 10 anos de idade.

Me habituei às partes boas e ruins de ser gorda. Partes boas existem? Sim! Tenho peitão, coxão e bundão, e gosto disso. O problema é quando fica tudo tão ÃO que não cabe mais nas blusas e calças de outrora. Tipo atualmente. Nunca precisei ir em loja de roupa de gordo, mas não tô longe disso, não.

A parte ruim? Essa é fácil. É preconceito pra caralho. A pior coisa que já passei quanto a isso aconteceu ano passado, numa balada em Ilha Bela – litoral norte de São Paulo: um cara ficava toda hora me empurrando na pista de dança. Pensei que ou fosse débil mental ou queria me pegar. Mas encheu o saco: virei pra ele e falei numa boa: “Amigo, você pode ir um pouquinho mais pra trás? Você está toda hora relando em mim”. O cara respondeu: “a culpa não é minha se você é enorme de gorda e ocupa todo o espaço disponível”. Não pensei duas vezes: catei o copo de uísque cheio que ele  tinha na mão e taquei na cara/roupa dele. Olha, recomendo do fundo da alma essa experiência. É incrível. O cara ficou PUUUUUUUUUUUUUUTO. Bem próximo de me bater. Mas minhas amigas me tiraram de lá – a essa altura eu tava soluçando de chorar – e chamaram o segurança pra dar um jeito no cara.

Tenho facilidade para emagrecer: basta minha vida estar OK e alguma mínima motivação – alguma festança a vista, algum romancezinho, formatura, viagem… Se os dois pontos citados batem, consigo ter ânimo pra me matar de malhar, emagrecer quase 10 Kg em um mês e manter a dieta por mais 2, 3 meses. Mas se não tem o tal motivo… Bodeio de tudo e engordo tuuuudo de novo.

Porquê raios isso acontece eu não tenho a mais puta noção, e ainda nem discuti isso com a minha terapeuta. Mas como isso acontece eu sei: eu tenho um distúrbio alimentar fodido – uma compulsão alimentar grave. Nada de bulimia nem anorexia. O que eu faço basicamente é dosar períodos de severas dietas alimentares com outros de completa “orgia” alimentar (esse termo achei excelente!). Vivo em função da comida, planejando o que vou comer, quando e porquê, fazendo cálculos de calorias e, de repente, me deixo levar por uma tentação e a dieta vem a baixo. Aí penso: “perdido por um…” e como. Como, como, como… Eu resumo: “A compulsão alimentar ou episódios de comer compulsivo, por definição, consiste na ingestão de uma grande quantidade de comida em período curto de tempo. Essa quantidade é definida como definitivamente superior do que a maioria das pessoas conseguiria comer durante um período de tempo igual e sob circunstâncias similares.”

Me alimento sem sentir fome. Eu costumo dizer, por brincadeira, que não espero sentir fome para comer. Com medo da fome, me previno. Algo assim.

Esse é um problema que eu tenho desde os mais remotos tempos de infância. Os sites que andei lendo me chocaram. Se aplicam a mim como uma luva, sem tirar nem pôr. Minha auto-estima sempre foi nula (antigamente era pior, mas ainda sim me sinto deslocada do mundo “normal”.) Tenho certeza da minha falta atributos físicos – só físicos, pq intelectualmente eu me amo. E olha só essa frase: “A intensidade dos excessos é diretamente proporcional ao grau de comprometimento da auto-estima.”

Só que aí vem a pior parte, a que mais se encaixa comigo: “No ataque de comer a pessoa come muito mais depressa que o usual, praticamente sem mastigar ou mesmo sem fome. Come até estar desconfortavelmente empanturrada. Quem come compulsivamente sente-se constrangido com a quantidade de comida que ingere no ataque de comer. Muitas vezes come escondido ou da forma mais discreta possível. Em público mantém comportamento alimentar controlado, tendendo a ingerir produtos dietéticos. Reconhece os ataques de comer como anormais e depois deles sentem-se culpados, deprimidos, preocupados com as conseqüências em longo prazo, inclusive em seu peso e forma corporal. Sua dificuldade em controlar-se é vista como “falta de força de vontade” e é acompanhada de autodesvalorização e desamparo.”

Sou eu, sem tirar nem pôr. Agora eu entendo direito todas as minhas neuras com o meu corpo, os porquê de eu achar que sou sempre a mais gorda, feia, desajeitada e por aí vai, do recinto.

Quando descobri sobre isso, fui atrás de tratamento. Mas, surpresa: R$ 250 A SESSÃO. Ou seja: só rico tem direito a tratamento. Espero que a minha terapeuta, bem mais barata por sessão, consiga me ajudar nisso.

(Fonte: site http://www.tommaso.psc.br/html/alimentar/compulsao/comp10.htm)

Sim, sou toda problemática, eu sei e tento lidar com isso.

Vida sofrida na escola

Minha vida na escola nunca foi muito fácil. Será que existe alguém no mundo que não foi maltratado na escola? Bom, eu fui. E MUITO. Um caso típico de bullying, que a minha escola de certa forma incentivava. Sério.

Nunca fui CFD. Sempre empurrei com a barriga a escola, raras vezes fiz lição de casa, mas acabava me dando bem nas notas. Mas era quieta. Não era tímida, mas excluída, considerada uma nerd.

contei que estudei boa parte da vida no colégio do bairro. E que metade do meu condomínio estudava lá também. Era um colégio grande, com 4, 5 salas por ano. Até a 4ª série, era QUASE suportável.

Nessa época eu tinha amigos na sala, até. Tinha o meu grupinho: Natália, Pâmela e Juliana. E tinha um tal de Bruno dos Santos, que era o terror dos professores e o terror dos alunos. Ele aloprava TODO mundo. Foi no meu aniversário de 10 anos e me fez chorar, me humilhou de forma discreta na frente da minha família e dos meus amigos. Vê se pode. Mas a justiça foi feita: no meio da 4ª série a professora anunciou, na frente de 30 e poucos alunos, que ele estava expulso. E todo mundo aplaudiu com entusiasmo.

Na 5ª série, tinha um repetente insuportável na minha sala. Igor. Ele se masturbava no fundo da sala. Um dia apertou meu peito na frente da professora, e a VADIA não disse nada, mesmo comigo uivando de ódio. Ela nos mandou aos berros à diretoria. A diretora ouviu a história. Ele rindo e ela achando normal. E disse para ele pedir desculpas. Ele pediu. E ELA o perdoou. Eu continuei o odiando. E ele continuou me zoando.

Na 6ª série até que era razoável. Sempre teve a turminha que me zoava até dizer chega. Humilhações das brabas. Mas o resto da classe até que era suportável. E tinha a Juliana (da 4ª série) de volta, e a gente acabou ficando super amiga de novo. Mas era duro aturar todos os meninos pagando o maior pau do universo para as metidinhas de cabelo listo, que faziam questão de PENTEAR no meio da classe. E eu na pior época do meu cabelo. De óculos. Sempre meio gorda. Dá pra imaginar, né.
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É nesse época que começam as festinhas. As ficadas. Preciso dizer que nunca fui em nenhuma, e que jamais tive qualquer relacionamento com algum menino da escola? Eu era uma excluída, considerada nada atreante e maltratada, mas ainda não tinha planos de explodir a escola e ver a cabeça de cada um deles pegando fogo. Ainda.

Na 7ª série entrou uma renca nova no colégio. A unidade 1 fechou (obras do metrô & stuff), e a galera foi pra nossa unidade. Minha sala só tinha gente nova. E era um bando de VAGABUNDA. Vagabunda mesmo. Ou marginalzinho. Mas eu nem sabia. Enquanto isso, eu continuava sendo zoada e humilhada por onde fosse. Mordia a ponta de um lápis e a vaca ali dizia para a classe toda ouvir que eu estava treinando como beijar. Levantava a cabeça e o filhodaputa ali gritava que não sabia como o Chris tinha ficado comigo, porque ele era até bonitão (era lindo, na verdade) e eu era horrorosa. Enfim. Desse nível pra baixo. Nunca foi nem um pouco fácil. Mas nunca tinha sido uma classe inteira.

Eu só tinha a Juliana. Eu e ela faziamos contagem regressiva dos anos pra terminar a fase escolar. Faziamos planos para destruir a escola. Fazíamos planos para foder as pessoas que nos humilhavam. Tudo por escrito. Na nossa famosa “carta do mês”. Até que um dia a vaca mais vaca da 7ª C resolveu vasculhar as coisas da Juliana sem ela saber – lógico. As minhas cartas pra ela estavam lá. Bom. Sessões das minhas cartas lidas em voz alta, com professor e tudo rindo, sabe. E todo mundo falando que a gente era lésbica, e que éramos horrorosas e blábláblá. 13 de setembro de 1999: um dos piores dias da minha vida. Chorei a tarde toda. Um misto de querer matar todo mundo (bem Columbine style) com uma tristeza, uma solidão, uma rejeição anormais. Sim, eu tinha amigos no condomínio. Mas no colégio era só a Juliana. Que tava na mesma situação que eu.

Aguentei mais 3 meses e sai daquela desgraça de colégio, amaldiçoando cada ser vivo que já pôs os pés lá. Porque ninguém me deixava em paz, simplesmente? Pq todo mundo tinha que jogar constantemente na minha cara que o meu cabelo não era liso, que eu era gorda, usava óculos, não era sequer cogitada pelos meninos? Já sei: para eu ser insegura pelo resto da vida. Parabéns, conseguiram. O foda é que vejo fotos daquela época e eu nem era assim tão gorda e tão estranha. Não mesmo. Só era deslocada.

Considerações importantes

QUASE chorei escrevendo esse post. Acho que é a primeira vez que boto isso tudo pra fora sem receio. Mas é impressionante como pensar na minha vida escolar de 1ª a 7ª série ainda me afeta. Ainda dói. Faz mais de 10 anos, mas o rancor tá sempre fresco. A sede de vingança perdura, também. Acho que eles conseguiram o que queriam: foder a minha auto-estima para sempre.

Nunca sai de lá por dois motivos: o primeiro é porque eu me sentia culpada. Não que eu achasse que merecesse aquela humilhação, mas pensava que onde estivesse, seria sempre rejeitada. Também porque meus pais não deixavam, achavam que aquele meu ódio todo era exagero. Eles nunca me defenderam, sempre deixaram que eu me virasse completamente sozinha nos meus problemas. Hoje acho isso ótimo, porque estou fortalecida contra muitas coisas que afetam demais a maioria das pessoas por aí. Mas, por outro lado, lidar sozinha com aquilo em plena puberdade era foda.

Sim, eu tinha os meus amigos no condomínio. O Chris, principalmente. Amigo, irmão, e mais, muito mais. Se bem que dentro de sua própria casa eu também sofria uma boa rejeição: sua mãe sempre me achou “baiana”, brega, feia, peluda, de cabelo ruim, e jogava na minha cara isso, com essas palavras.

Mas, acima de tudo, eu tinha a Juliana, que sofria comigo no Colégio Morumbi Sul. Nunca fomos as melhores amigas, temos algumas características peculiares que não batem para isso, mas sempre nos demos bem. É a amizade sólida que mais perdura na minha vida.

E aí, na 8ª série, minha vida mudou. Completamente. Mas isso é história para outro post.